Rachid Benzine: "Os livros são um ato de resistência quando tudo desmorona"

Escritor marroquino defende que a literatura preserva a liberdade interior e critica a cobertura mediática do conflito israelo-palestiniano.

Imagem genérica de um livro aberto com texto em árabe e uma pomba desfocada ao fundo de uma cidade em ruínas ao anoitecer.
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Imagem genérica de um livro aberto com texto em árabe e uma pomba desfocada ao fundo de uma cidade em ruínas ao anoitecer.

O escritor marroquino Rachid Benzine defende que os livros funcionam como um ato de resistência em tempos de crise, preservando a liberdade interior e criticando a cobertura mediática do conflito.

O escritor marroquino Rachid Benzine, de 55 anos, afirmou que "os livros podem ser um ato de resistência quando tudo está a desmoronar-se", especialmente em contextos de guerra ou ditadura, onde a literatura se torna um refúgio e um meio de preservar a liberdade interior. Numa entrevista ao FÓLIO 2026, Benzine abordou a importância da narrativa palestiniana e criticou a forma como o conflito é retratado pelos media ocidentais.
Benzine explicou que, embora os livros não possam parar as bombas, permitem "preservar uma liberdade interior que qualquer poder não nos pode tirar". Citou testemunhos de pessoas em prisões que resistiram através da leitura de poemas. No seu livro "O homem que lia livros", a personagem Nabil Al Jaber encontra na literatura um refúgio, recebendo do livreiro obras como "A Condição Humana" de André Malraux e poemas de Mahmoud Darwish, que representam a dureza da vida e a necessidade de uma perspetiva harmoniosa.
O autor criticou a cobertura jornalística que, segundo ele, se foca excessivamente na violência e no espetáculo, apelando à emoção e ao medo, o que leva a uma perceção distorcida da realidade. "As notícias tornaram-se um campo onde se apela, cada vez mais, à emoção e ao medo", lamentou, acrescentando que a normalização e amplificação da violência nas redes sociais contribuem para esta visão negativa do mundo.
Benzine sublinhou a importância de dar voz às narrativas invisibilizadas, como a palestiniana, que em França se tornou "inaudível" após 7 de outubro de 2023. "Falar de Gaza em França significa a morte social", confessou, relatando ter sofrido uma "anulação" e "desigualdade em termos de acesso e de pluralidade de narrativas". Para o escritor, escrever sobre a Palestina é um ato literário e político que afirma o direito dessa história de existir, lembrando que o conflito remonta a 1948, e não apenas a outubro de 2023.
Abordando a questão política, Benzine mencionou que Benjamin Netanyahu tinha informação sobre um ataque iminente do Hamas, e que a política israelita nunca considerou seriamente a ideia de um Estado palestiniano. Classificou a guerra como "política" e "colonial", onde a impunidade internacional permite que "os fortes tendam a tornar-se bárbaros". Lamentou o colapso do direito internacional em Gaza, onde, apesar de conclusões da ONU e do TPI, não houve aplicação da lei.
O escritor defende que o fim da sede de vingança passa pelo perdão, citando exemplos como Mandela e Gandhi, mas frisou que o perdão só é possível após a justiça. Sobre a coexistência de diferentes interpretações do Islão, Benzine apelou ao respeito pela pluralidade e à aceitação das diferenças entre progressistas e conservadores. A responsabilidade dos líderes em conflito é "enorme", especialmente dos mais poderosos, que têm a capacidade de "fazer muito mais" e de escolher "não se vingar".
Finalmente, Benzine refletiu sobre a desigualdade nas fronteiras e na liberdade de circulação, contrastando a experiência de Portugal após a entrada na União Europeia com a de migrantes africanos. "Temos de perceber que essa liberdade não é igual para nós e para eles", concluiu, alertando para a "testa crispada" que caracteriza a relação atual com o outro, apesar de se buscarem os seus recursos.
Informação elaborada a partir da fonte oficial: Município de Óbidos – Notícias (22/10/2026)