A vila de Grândola acolheu, a 22 de setembro, a reunião inaugural da Comissão Municipal para as Comemorações do Centenário do Nascimento de José Afonso. O encontro marca o início da preparação de um programa que visa assinalar, de forma plural e abrangente, os 100 anos do nascimento de uma figura proeminente da cultura portuguesa do século XX.
As comemorações estão previstas para decorrer entre 17 de maio de 2028 e 2 de agosto de 2029. Estas datas estabelecem uma ligação simbólica com dois momentos cruciais: 17 de maio, dia em que José Afonso visitou Grândola pela primeira vez em 1964; e 2 de agosto, data de nascimento do autor do icónico poema «Grândola, Vila Morena».
A primeira visita de José Afonso a Grândola, em 17 de maio de 1964, foi um momento marcante. Foi após este primeiro contacto com a vila e a relação estabelecida com os seus habitantes e a Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense — Música Velha que José Afonso redigiu a versão inicial do poema «Grândola, Vila Morena». A canção, gravada anos depois, tornou-se um símbolo da resistência à ditadura, tendo sido transmitida pela Rádio Renascença na madrugada de 25 de abril de 1974, o que serviu de sinal para o avanço do Movimento das Forças Armadas e a consequente instauração da democracia em Portugal.
A Comissão integra personalidades com diversos percursos e ligações a José Afonso, com o objetivo de garantir uma abordagem diversificada da sua obra, da sua dimensão artística, do seu pensamento e da sua relação com Grândola e outros territórios.
Fazem parte da Comissão Alcides Bizarro (Chefe da Divisão de Cultura do Município de Grândola), Hélder Costa (dramaturgo, ator e encenador), Arturo Reguera (ligado a José Afonso na Galiza), Dulce Manuel (sobrinha de José da Conceição), Guilherme Lourenço (artista grandolense), Irene Flunser Pimentel (historiadora), João Afonso (músico e sobrinho de José Afonso), José Fortes (técnico de som e produtor musical), Luís Freitas Branco (autor de «A Revolução Antes da Revolução»), Rui Pato (músico), Rui Vieira Nery (musicólogo e historiador), Viriato Teles (jornalista), João Madeira (historiador, em representação da Associação José Afonso) e Adélia Botelho (Presidente da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense).
A presidência da Comissão é assumida por Francisco Fanhais, cantor, compositor e amigo de José Afonso, uma referência da música portuguesa e da resistência à ditadura. A sua presença traz à Comissão uma memória direta de um período crucial da história cultural e política portuguesa.
Na primeira reunião, foram estabelecidas as bases temáticas do programa, prazos e metas de trabalho. Iniciou-se a idealização de uma programação representativa e plural, digna da dimensão de José Afonso e da importância da sua obra na História da Cultura Portuguesa contra a ditadura e em benefício da democracia.
Foram também apresentadas diversas ideias e propostas para o programa, abrangendo áreas como música, investigação histórica, memória, património, criação artística, edição e divulgação, com iniciativas dirigidas a diferentes gerações.
A intenção é envolver a comunidade de Grândola, instituições culturais e educativas, investigadores, artistas e associações, criando momentos de participação e reflexão ao longo do período comemorativo.
A Comissão continuará a reunir nos próximos meses para consolidar um programa que vá além da comemoração, permitindo revisitar a obra de José Afonso, aprofundar o conhecimento sobre o homem e o seu tempo, e discutir o seu legado cultural, artístico, cívico e democrático.
Em Grândola, a vila onde a história de uma canção se cruzou com a história de um país, o centenário de José Afonso será assinalado com base numa relação que começou em 1964, mantendo a vila como um lugar incontornável da memória coletiva.




