O projeto Film and Death: Film Philosophy as a Meditation on Death, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC), questiona se um filme precisa de mostrar a morte para nos fazer pensar nela. Liderado por Susana Viegas, investigadora do IFILNOVA, o estudo procura perceber de que forma o cinema, através de imagens, tempo, duração, espera, ausência ou repetição, pode tornar percetível a nossa condição finita. Iniciado em junho de 2023, o projeto tem uma duração de cinco anos.
No filme Cléo de 5 à 7, de Agnès Varda, a personagem Cléo espera pelo resultado de um exame médico. Embora a sua morte não seja mostrada, a ansiedade da espera e a passagem do tempo tornam a possibilidade da perda cada vez mais presente. "A morte nunca é mostrada, mas a espera de Cléo e a passagem do tempo tornam a possibilidade da morte cada vez mais presente. Essa presença, por sua vez, transforma-se numa atitude de confronto, e não apenas de medo", explica Susana Viegas.
O projeto foca-se em como a experiência de assistir a um filme pode tornar percetível a nossa própria finitude, introduzindo o conceito de "imagem-morte". Esta ideia ultrapassa a simples representação, fazendo-nos pensar na morte através da duração de um plano, ausência, repetição ou sensação de desaparecimento.
A investigação considera os filmes como "objetos e agentes de pensamento", analisando elementos como a duração dos planos, o enquadramento ou os movimentos de câmara para compreender como moldam a nossa experiência e o que nos permitem pensar sobre o tempo e a finitude. Esta abordagem é crucial, pois não podemos experienciar a nossa própria morte, mas podemos confrontar-nos com a ideia através de outras experiências, como o cinema.
O projeto também desenvolve o conceito de "imagem-morte" e explora as relações entre cinema e morte através de ferramentas como o Film and Death: A Conceptual Knowledge Map, que visualiza ligações entre filmes, cineastas, conceitos e temas. Este mapa funciona como um "laboratório conceptual" para explorar o conhecimento produzido.
Para além do espaço académico, a investigação procura dialogar com o público através do ciclo Falar sobre a morte (nunca matou ninguém), promovido pelo Goethe-Institut Portugal, e do podcast Film and Death Talks. Estas iniciativas usam o cinema como ponto de partida para conversas sobre a mortalidade e a finitude.
Em suma, pensar a morte através do cinema pode significar prestar mais atenção ao tempo, à ausência e à memória, realçando a própria experiência de estar vivo. Como resume Susana Viegas, "um memento mori pode assim tornar-se facilmente num memento vivere."




