Nascida em Salto, Montalegre, mas com fortes ligações artísticas ao Porto, Fátima Carvalho dedica a sua obra fotográfica à exploração da duração temporal em elementos naturais como árvores antigas, flores e frutos. A sua câmara foca-se naquilo que vive e se transforma, procurando captar a tensão temporal inerente a cada motivo.
A série Árvores Vigilantes do Tempo, parte de Árvores & Flores, apresenta árvores centenárias fotografadas a preto e branco sobre papel e linho artesanal. Estas imagens, acompanhadas por textos de Rosa Alice Branco, Maria do Carmo Serén e José Manuel Mendes, realçam a singularidade e os vestígios de tempo destas presenças botânicas.
Em Flores e Frutos, segundo subtítulo da exposição, a artista foca-se na beleza ligada à maturação e mudança de forma. José Tolentino de Mendonça observa que Carvalho regressa aos mesmos motivos em diferentes estados e luzes, captando cada fotografia como um instante de espera e nova aproximação.
A dimensão poética, já presente no livro Manhã Total em homenagem a Eugénio de Andrade, é uma chave para apreciar a obra de Fátima Carvalho. Tal como na poesia, olhar as suas imagens exige tempo, permitindo descobrir qualidades únicas que a observação apressada deixaria passar.
José Tolentino de Mendonça, no seu texto, destaca que Fátima Carvalho intercepta as formas no seu acontecer, sondando o seu fluxo incompleto e extasiado. A artista não pretende imobilizar o que resiste à fixação, mas sim escutar o complexo e o aberto, o fluir misterioso da natureza. Cada imagem é um ponto de partida para uma travessia mais vasta, onde uma flor ou fruto condensam a memória da terra.
O trabalho de Carvalho revela uma dimensão sapiencial, um conhecimento que se produz no processo criativo por empatia e silêncio. Cada série é um percurso de pesquisa, uma disciplina que afina o olhar para revelar o que a pressa esconde. A repetição de motivos, como fotografar a mesma flor ou fruto em diferentes estados, é um método que permite alcançar um agudo discernimento, onde cada regresso ao motivo é um afastamento subtil, pois nada se repete verdadeiramente igual.
A exposição ecoa o pensamento de Santo Agostinho sobre o tempo interior da alma, e de Donna Haraway sobre o "tornar-se com" (Becoming-with). Carvalho explora o tempo psíquico, a espera vivida, enquanto Haraway propõe pensar com as formas de vida, integrando o observador na rede que observa, num conhecimento que nasce do contacto e não da distância.
A ideia de "vida em relação" é central na obra de Fátima Carvalho. As suas flores e frutos não estão isolados, mas existem em relação com o ar, a luz e a humidade. A artista capta a passagem de uma forma para outra, onde o declínio é uma modalidade necessária da vida. A sobrevivência é colaboração, um pacto com outros corpos e ciclos, como sugere a frase de Eugénio de Andrade: "todos somos boca à espera do ardor do vento para ser ave".




