Herminia Luque: "Os homens têm medo de perder os privilégios"

Escritora vencedora de residência literária em Óbidos defende a luta das mulheres e critica o retrocesso ideológico em Espanha.

Imagem genérica de uma pena de escrita antiga sobre livros, com iluminação suave.
IA

Imagem genérica de uma pena de escrita antiga sobre livros, com iluminação suave.

A escritora feminista Herminia Luque, vencedora da Residência Literária em Óbidos, critica o desinteresse dos jovens pelo passado e o perigo da ascensão da extrema-direita, defendendo a luta e a esperança das mulheres.

A escritora Herminia Luque, vencedora da Residência Literária em Óbidos para escritores de Granada, encontra-se a escrever um novo livro focado em mulheres, com Josefa d’Óbidos como uma das personagens centrais. Luque expressa preocupação com o desinteresse dos jovens pela história e a sua aparente atração por tempos passados como a ditadura de Franco, lamentando um "retrocesso de 40 anos" em Espanha devido à ignorância sobre a importância da leitura e do conhecimento.
Durante a sua residência literária em Óbidos, Luque aproveitou o silêncio e o isolamento para desenvolver a sua nova obra, que se foca em dar voz a duas artistas do século XVII: Josefa d’Óbidos e Ana Heilan. O romance incluirá o retábulo de Santa Catarina, de Josefa d’Óbidos, presente na Igreja de Santa Maria, simbolizando a vitória da sabedoria sobre a ignorância.
A autora defende veementemente o empoderamento feminino e a presença das mulheres no espaço público e na política, alertando para os perigos de ideologias de ultra-direita que negam a violência de género e minimizam as conquistas femininas. "Há partidos de ultra-direita que negam a violência sobre as mulheres. Este discurso é muito perigoso", afirma, sublinhando que muitas jovens desconhecem as lutas passadas para obter direitos como estudar, trabalhar e ter independência económica.
Luque identifica os jovens, especialmente os rapazes, como os principais seguidores da ideologia de ultra-direita, motivados pela virilidade e pela manutenção de hierarquias de género. Relaciona este fenómeno com o desporto, nomeadamente o futebol, e cita como exemplo a declaração de Claudia Sheinbaum, presidente do México, a Donald Trump, para realçar a importância da representação feminina na política.
A escritora lamenta que muitos jovens em Espanha reivindiquem a ditadura de Franco, demonstrando um profundo desconhecimento sobre o período e os seus crimes. "Franco era um criminoso. Chegou ao poder assassinando 300 mil pessoas", recorda, criticando a falta de espírito crítico e a recusa em debater o passado, mesmo dentro de algumas famílias mais tradicionais. "Temos de ir avançando sempre", defende.
Apesar de prever a vitória da direita e da extrema-direita em Espanha, Luque mantém a esperança, inspirada por figuras como Maria Zambrano e pela resiliência de pessoas em Auschwitz. "Somos mais os que temos boas ideias e coração. Queremos liberdade", afirma, apelando à luta através da palavra, do conhecimento e do espírito crítico para combater o fascismo e as ditaduras.
Luque acredita que os homens temem perder os seus privilégios históricos, como o controlo e os benefícios obtidos através da subordinação das mulheres, que foram historicamente equiparadas a "escravas domésticas". A autora compara a realidade atual com a obra "A História de uma Serva" de Margaret Atwood, alertando para a mercantilização do corpo feminino, especialmente através da barriga de aluguer.
Interpretando o tema do FÓLIO 2026, "Para além da pele", Luque considera-o muito adequado para refletir sobre a quebra da fronteira entre o íntimo e o público, a mercantilização do corpo humano e a perda da alma em favor de uma identidade fragmentada e tecnológica. "Temos de pensar neste conceito de ser humano mercantilizado, vendido, comprado. Queremos um corpo com dignidade e com direitos."
Informação elaborada a partir da fonte oficial: Município de Óbidos – Notícias (16/10/2026)