Os resultados, publicados na revista científica International Journal of Obesity, indicam que as características da gordura da barriga, e não apenas a sua quantidade e localização, estão associadas a doença das artérias do coração. A técnica funciona como uma biópsia virtual, onde algoritmos de inteligência artificial extraem centenas de características do tecido, como densidade e textura, invisíveis a olho nu.
A equipa analisou exames de 1.736 adultos sem doença coronária conhecida, focando-se na gordura subcutânea, visceral e abdominal total. Os cientistas identificaram uma “assinatura pró-aterogénica”, uma gordura com textura mais heterogénea, associada à presença de calcificação nas artérias coronárias, um marcador de aterosclerose e de maior risco de enfarte.
“Quando a gordura abdominal se torna muito heterogénea na sua textura, isso funciona como um sinal de alerta para a presença de calcificação nas coronárias”, afirma a investigadora da FMUP.
O estudo revelou também diferenças pronunciadas na estrutura da gordura abdominal entre homens e mulheres. “Nos homens, até a gordura subcutânea, que tendemos a considerar protetora, já tem características de gordura de risco. Isto pode ajudar a perceber por que razão, em média, os homens têm enfartes cerca de dez anos mais cedo do que as mulheres”, acrescenta Jennifer Mancio.
A radiómica poderá ser aplicada em larga escala para conhecer a qualidade da gordura, tornando o processo totalmente automático e dispensando a segmentação manual. Segundo a investigadora, esta análise não implica custos nem radiação adicionais para os doentes, pois aproveita TAC já pedidas por outros motivos. No futuro, poderá ajudar a identificar mais cedo quem tem características da gordura com maior risco de calcificação coronária e a personalizar a prevenção e o tratamento de pessoas com obesidade.
O estudo foi realizado no âmbito do projeto SAFE-CT e financiado pela Bolsa CUF D. Manuel de Mello, da Fundação Amélia de Mello.




