A inteligência artificial está a acelerar a transformação das empresas, mas a tecnologia é apenas parte do problema. Como preparar os trabalhadores para funções que ainda não existem? Como liderar equipas com expectativas diferentes, num contexto em que pessoas, agentes de inteligência artificial e robots poderão trabalhar lado a lado? Estas foram algumas das questões que marcaram o Pequeno-Almoço Executivo promovido pela FEP, no dia 23 de outubro, subordinado ao tema “Future of Work 2030: Como se estão a preparar as Organizações para as grandes transformações na próxima década?”. O encontro reuniu responsáveis empresariais de diferentes setores para discutir as mudanças que estão a redefinir o mundo do trabalho, num debate que colocou em evidência um desafio central: a capacidade de incorporar novas tecnologias terá de ser acompanhada por uma transformação dos modelos de liderança, da aprendizagem e da gestão de pessoas.
A iniciativa integra um ciclo de pequenos almoços executivos sobre o Future of Work, mote da FEP para o ano letivo 2026/2027, dedicado aos desafios e oportunidades que estão a transformar o trabalho, as competências e as organizações. A velocidade da transformação tecnológica está a obrigar as empresas a rever processos, funções e competências. Na Corticeira Amorim, com 156 anos de história, a adaptação não é novidade, mas a aceleração da mudança coloca novas exigências. Alexandra Godinho, responsável pelos Recursos Humanos corporativos, recordou que a empresa duplicou a faturação nos últimos 15 anos e tem acompanhado uma evolução tecnológica marcada pela automação e, mais recentemente, pela inteligência artificial. O desafio passa por preparar as pessoas para uma realidade em que algumas profissões tradicionais desaparecem e outras exigem competências diferentes, com processos de requalificação e desenvolvimento de competências, bem como a criação de estruturas próprias de formação.
Na Sogrape, a transformação digital é estratégica. André Campos, membro do Conselho de Administração e Chief of People and Transformation Officer, destacou a rapidez com que a inteligência artificial está a ser adotada, “acima das expectativas iniciais”. Com operações em oito países e mais de mil colaboradores, a empresa enfrenta o desafio de acompanhar esta evolução numa estrutura que integra realidades profissionais distintas. Para o responsável, “a liderança terá de evoluir para um contexto em que gerir pessoas deixará de ser suficiente”: será também necessário “coordenar a interação entre trabalhadores, agentes de inteligência artificial e robots. Esta mudança coloca a empatia e a capacidade de compreender as pessoas no centro da transformação”. A questão já não é apenas saber que ferramentas estarão disponíveis, mas perceber como integrá-las no trabalho e garantir que os profissionais têm condições para acompanhar a mudança.
A transformação das lideranças é uma área onde a resistência à mudança se faz sentir com maior intensidade, segundo Alexandra Godinho. Modelos assentes na disponibilidade permanente e numa orientação quase exclusiva para resultados podem já não corresponder às expectativas das gerações mais jovens. As organizações têm também de preparar os trabalhadores para contextos profissionais que exigem resiliência, autonomia e tolerância à ambiguidade. Ana Queiroga, diretora de Recursos Humanos do Grupo MDS, defendeu a “importância de líderes capazes de acompanhar o trabalho no terreno, orientar os colaboradores e apoiar o seu desenvolvimento”, chamando também a atenção para a “necessidade de aproximar os modelos formais de carreira da experiência real dos profissionais”.
Na Deloitte, a inteligência artificial está a ser integrada para reforçar a produtividade e dedicar mais tempo a competências humanas, como o pensamento crítico e as competências relacionais. Margarida Uva, Associate Partner, destacou a importância de “capacitar as próprias lideranças para a utilização das ferramentas digitais”. Se a tecnologia permite executar tarefas com maior rapidez, o tempo libertado dependerá da capacidade das organizações para investir no desenvolvimento dos seus profissionais e redesenhar o trabalho. A formação tecnológica deve ser complementada com o desenvolvimento de competências humanas, onde a capacidade de aprender, questionar e adaptar-se poderá ser tão importante como o domínio de uma tecnologia específica.
A reflexão estendeu-se à necessidade de desenvolver o pensamento crítico num contexto em que a inteligência artificial torna fácil obter respostas. Filipa Pires, diretora executiva da Pessoas e Sistemas, trouxe para a discussão o contributo do coaching filosófico e da formulação de perguntas como “instrumentos para estimular o pensamento”. A “capacidade de questionar, analisar problemas e explorar diferentes perspetivas” ganha relevância numa realidade em que a execução de tarefas poderá ser progressivamente automatizada. As organizações terão de encontrar formas de desenvolver estas competências e preparar as pessoas para funções que exigem maior autonomia, criatividade e capacidade de decisão.
O debate contou com a participação de Alexandra Godinho (Corticeira Amorim), Ana Queiroga (Grupo MDS), André Campos (Sogrape) e Margarida Uva (Deloitte). Estiveram igualmente presentes representantes de outras organizações, como Jorge Rodrigues (Amkor Technology Portugal), André Braga (Crédito Agrícola), Sandra e Sousa Amorim (EY), Alberto Pinto (FairJourney Bio), Pedro Martins (MDS) e Cília Assis (uMan Xpert). A FEP esteve representada pelo seu Diretor, Óscar Afonso, entre outros.




