Zeferino Coelho, editor da Caminho, confessou, este domingo, 18 de outubro de 2026, no FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, que “o principal medo de um editor é estar a passar-lhe pelas mãos uma obra-prima e não perceber”. O editor foi o primeiro homenageado do Município de Óbidos com o Galardão José Pinho, antigo administrador da Ler Devagar e fundador do FÓLIO. Rodeado de autores que publicou ao longo de mais de 50 anos, de editores e de amigos, Zeferino Coelho, de 81 anos, continua a trabalhar para a Caminho, editora adquirida pela Leya.
O editor da Caminho admitiu que a experiência de não reconhecer uma obra-prima aconteceu "várias vezes, e é normal", observando que "as ideias feitas são muito úteis, mas, por vezes, são fatais", em alusão à desistência da leitura de provas após as primeiras 10 páginas.
Em resposta às palavras elogiosas de diversos escritores, Zeferino Coelho comentou que está "a passar por um período da vida em que olho mais para trás do que para a frente", mas que "vai fazer muito mais coisas".
O escritor moçambicano Mia Couto destacou, em mensagem enviada, a atenção de Zeferino Coelho "aos outros" e por ter aberto portas a escritores de cinco países africanos, afirmando que o fez "por amor à literatura" e ajudou à publicação nos seus países, dando "plena autonomia editorial aos proprietários angolanos e moçambicanos". Três autores moçambicanos lançados pelo editor receberam o Prémio Camões.
Após publicarem 29 livros juntos, o escritor Daniel Sampaio caracterizou Zeferino Coelho como um homem "corajoso", com quem desenvolveu uma relação de confiança transformada em amizade. Lembrou o seu "percurso político e cívico" como "homem de esquerda durante a ditadura, quando essa posição implicava riscos".
Daniel Sampaio sublinhou que "a literatura não é apenas um objeto comercial. É uma forma de conhecimento, de confronto com o mundo, e de liberdade", e que editar "implica descobrir, ler, acompanhar". "Ao olhar para os 29 livros, vejo a história de uma amizade fraterna e estimulante, o rigor com que leu e acompanhou os meus livros. Tive o privilégio de contar com um grande editor e um grande amigo", acrescentou.
Ana Rita Bessa, administradora executiva da Leya, descreveu Zeferino Coelho como uma testemunha "privilegiada do seu sentido de dever, sentido de humor e inesgotável sabedoria", chegando à Leya "sempre de jornal [Público] debaixo do braço, por vezes de boina basca, e sempre de porta aberta", sendo apresentado como "um editor que organiza a memória".
O escritor Paulo Teixeira relembrou que, em 1991, um comissário europeu previu o fim da Caminho, mas a profecia não se concretizou. Apesar das dificuldades, Zeferino Coelho nunca as deu a conhecer, e manteve o hábito de esperar os autores à porta, "como se fossemos estrelas da TV e da rádio".
Filipe Daniel, presidente da Câmara de Óbidos, afirmou que ao atribuir o Galardão José Pinho pela primeira vez, se começa a escrever a história do prémio, e o nome de Zeferino Coelho dá a este início "uma referência de exigência, de seriedade e de compromisso com a literatura". "Um editor lê com atenção, reconhece uma voz, acompanha uma obra. Precisa de critério para escolher e de coragem para sustentar escolhas, cujo valor nem sempre é imediatamente reconhecido", referiu.
O autarca explicou que o Município quer tornar visível e agradecer este trabalho discreto, justificando que "o percurso de Zeferino Coelho mostra-nos o quanto um editor pode acrescentar à cultura de um país", formando novos leitores com a coleção "Uma Aventura". "Este prémio aproxima dois percursos com um ponto de encontro muito claro. José Pinho ajudou a criar lugares e encontros para os livros. Zeferino Coelho dedicou a sua vida a cuidar dos livros e de quem os escreve", sintetizou.
Alberto Santos, secretário de Estado da Cultura, destacou que "a maior parte do trabalho de um editor se faz longe dos olhares dos leitores", mencionando a leitura de autores desconhecidos, correções, escolha de capas e títulos. O ex-presidente da Câmara de Penafiel, terra natal de Zeferino Coelho, recordou histórias do editor, como a espera pela biblioteca itinerante e a sua pergunta ao avô sobre "Os Lusíadas", que formaram o editor homenageado.
Alberto Santos saudou a organização do FÓLIO pela homenagem e pela oportunidade dada aos leitores de falarem com autores e participarem no debate cultural, reiterando que "José Pinho acreditou que os livros podiam transformar uma terra" e que atribuir o galardão com o seu nome a Zeferino Coelho aproxima "dois percursos que levaram a literatura mais longe".




