Na sessão de abertura do festival, em Óbidos, Leitão Amaro sublinhou a importância de incentivar crianças e jovens a lerem, em detrimento da procura por "resumos" gerados por inteligência artificial. O governante manifestou ainda surpresa pela "falta de choque do país" após a divulgação do estudo PISA, que revela um novo decréscimo nas competências dos alunos de 15 anos em Leitura, Matemática e Ciências.
Defensor do uso "regrado" das redes sociais e da restrição de telemóveis nas escolas, o ministro criticou a publicação de livros não escritos por humanos. Recordando o alerta de José Tolentino de Mendonça sobre o risco de a IA "empobrecer a imaginação", Leitão Amaro salientou que a leitura permite aprender e conhecer "pessoas e experiências diferentes". "Temos de lutar por livros feitos por humanos com tempo", desafiou.
O ministro recordou o entusiasmo do antigo presidente da Câmara de Óbidos, Telmo Faria, pela criação do festival, que transformou a vila na "capital dos livros" e Cidade Criativa da Literatura da UNESCO em 2015. Leitão Amaro considerou o FÓLIO um "projeto de excelência" que tem tido continuidade com os autarcas Humberto Marques e Filipe Daniel, afirmando ser "um orgulho esta história estar a ser escrita há mais de uma década".
Filipe Daniel, presidente do município, concordou que "há decisões que mudam a forma como um território se vê e como passa a ser visto", destacando o FÓLIO como uma "aposta diferenciadora, com reconhecimento nacional e internacional" que demonstra que "fora dos grandes centros urbanos, se podem realizar feitos extraordinários".
A autarquia volta a atribuir vouchers de 20 euros a todos os alunos do Agrupamento de Escolas Josefa de Óbidos para aquisição de livros no festival. O autarca acredita que esta medida tem um "potencial transformador", pois "coloca um livro ao alcance de todos os alunos, investe na igualdade de oportunidades e na liberdade de cada um para imaginar e construir o seu futuro".
O FÓLIO, destinado a todos, contou com interpretação em Língua Gestual Portuguesa na sessão inaugural e terá o mesmo apoio nas 13 mesas de autores. Filipe Daniel explicou que o tema "Para além da pele" visa "reconhecer a pessoa além da aparência, a história além do preconceito, e a complexidade além da resposta fácil", defendendo que "um festival literário deve preservar o espaço de pensamento, de descoberta e de discordância respeitosa".
Ricardo Duque, vereador da Cultura, defende que o FÓLIO deve ser um "espaço de verdadeira liberdade intelectual", onde as ideias possam ser discutidas e confrontadas. "Não procuramos unanimidades. Procuramos pensamento", assegurou, defendendo a escuta e a aceitação da diferença para a "construção de sociedades livres e responsáveis".
Joana Pinho, administradora da Ler Devagar e curadora do FÓLIO Mais, observou que "num tempo marcado por tanta violência, parar para escutar o outro pode ser um gesto de resistência". "Talvez seja essa uma das tarefas mais importantes da literatura: lembrar-nos de que o mundo não está terminado", acrescentou.
A filha de José Pinho, mentor do FÓLIO, questionou o foco em livros enquanto "há pessoas a lutar pela sua casa, pela sua terra, pela sua liberdade, a fugir da guerra e que perderam tudo" e "há um genocídio em curso". "Que mundo estamos a escrever nas nossas peles de papel? Que histórias escolhemos guardar? Que vozes queremos fazer atravessar o tempo? Que mundo queremos deixar escrito?", perguntou.
Em homenagem a José Pinho, Ricardo Duque anunciou a criação do Galardão José Pinho, "destinado a distinguir personalidades ou instituições que tenham contribuído de forma particularmente relevante para a literatura, a criação artística, o pensamento e a democratização do acesso à cultura".
Zeferino Coelho será o primeiro galardoado, no último dia do FÓLIO, pelo seu "percurso, profundamente ligado à afirmação de grandes autores portugueses, entre os quais José Saramago". A cerimónia contará com a presença do Presidente da República, António José Seguro.
Ricardo Duque defendeu que "a literatura pode constituir uma verdadeira política pública de desenvolvimento" e que "o acesso à cultura e ao conhecimento não deve depender da condição económica", razão pela qual o FÓLIO tem entrada livre. "As obras mais importantes que uma comunidade deixa não são apenas as que se constroem de pedra. São também as que se constroem nas pessoas", acrescentou.
Pedro Rodrigues, presidente da Óbidos Criativa, lembrou que o FÓLIO "faz parte de uma estratégia cultural que Óbidos tem vindo a construir", baseada na convicção de que "a literatura, a cultura e a criatividade podem, efetivamente, transformar um território". Destacou o Plano Estratégico Óbidos Cidade Criativa da Literatura 2025-2035 e o Conselho Estratégico de Literatura e Conhecimento.
Pedro Rodrigues comentou que "é preciso pensar no conhecimento que produzimos e nos públicos que formamos", e que "a diversidade só é verdadeiramente riqueza quando não transformamos cada diferença numa divisão e cada discordância num antagonismo".
Maria Eduarda Marques, vice-presidente da Fundação INATEL, destacou o "espírito de cooperação que ergue este festival", parceira do FÓLIO desde 2016. "Fomentamos a democratização no acesso à arte, garantimos uma maior coesão territorial, salvaguardamos o património cultural imaterial e apoiamos artistas emergentes".




