Jon Fosse encara a escrita como uma viagem ao desconhecido

O Prémio Nobel da Literatura de 2023 partilhou as suas perspetivas sobre o processo criativo no festival FÓLIO em Óbidos.

Imagem de Jon Fosse a discursar no festival FÓLIO em Óbidos.
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Imagem de Jon Fosse a discursar no festival FÓLIO em Óbidos.

O Prémio Nobel da Literatura, Jon Fosse, descreveu a escrita como uma "viagem ao desconhecido" e um "porto seguro" durante a sua intervenção no festival FÓLIO, em Óbidos.

O escritor norueguês Jon Fosse, vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 2023, partilhou as suas reflexões sobre o ato de escrever perante uma sala repleta no FÓLIO - Festival Literário Internacional de Óbidos. Fosse confessou ter um "dom" peculiar: "Tenho uma estranha sensação de que está tudo escrito algures e que só tenho de tomar nota", afirmou, explicando que "simplesmente começo e deixo fluir".
O autor, com mais de 70 livros publicados, revelou que as suas obras, como a "Trilogia", surgem de forma espontânea. "Não preparei o que ia acontecer", disse, acrescentando que "Fiz transparecer a questão humana, real, mas quando me perguntaram quem eram as personagens e de onde vinham, não sabia". Fosse explicou que, ao iniciar a escrita, precisa de "encontrar o meu caminho" e que "surge uma outra linguagem" para abordar "o indizível".
Um acidente na infância, aos sete anos, marcou o desejo de Fosse de ser artista, descrevendo-o como uma "experiência quase de morte". "Vi-me fora do corpo", contou, notando que "em certas partes de ‘Trilogia’, vejo-me assim". Para o escritor, "a literatura é transcendência, é chegar a outro nível, é maior do que a vida", e "não escrevo para me expressar, mas para fugir de mim próprio".
Fosse descreveu a escrita como um refúgio, algo que o protege desde que começou aos 12 anos. "É um porto seguro dentro de mim, onde me refugio", explicou. Embora tenha experimentado com o álcool para ultrapassar bloqueios criativos, constatou que "para escrever verdadeiramente bem tenho de estar sóbrio", pois a sua escrita "requer precisão" que se perde após beber.
O autor nórdico salientou que "escrever é uma viagem em direção ao desconhecido, mas temos de nos sentir livres de ir em qualquer direção". Referiu que, apesar de períodos de receio de se perder, escrever "é trazer algo que não existia antes". Fosse, que passou da Igreja Luterana para a Católica, concluiu que "é tudo um mistério. Temos de aceitar isso".
Informação elaborada a partir da fonte oficial: Câmara Municipal de Óbidos (11/10/2026)