A autora francesa Anne Serre revelou que inicia todos os seus livros de ficção a partir de "uma frase que se impunha no final de um sonho", enquanto a escritora portuguesa Ana Margarida de Carvalho indicou que as suas ideias surgem mais de imagens. As duas autoras debateram o tema na noite de sexta-feira, 9 de outubro, no FÓLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, moderadas por Ana Sousa Dias.
"Comecei todos os meus livros com uma frase que se impunha a mim, ao acordar, no final de um sonho que acabei de ter. Sentia que aquela frase continha um livro", explicou Anne Serre. Admitiu, contudo, que por vezes se enganava, pensando que a frase continha uma história "fabricada" que só tinha de ser escrita, mas que, após 10 páginas, "nem valia a pena insistir".
Ana Margarida de Carvalho, ex-jornalista e ex-crítica de cinema, explicou que as suas ideias surgem mais de uma imagem, justificando que "somos de uma geração cheia de memórias visuais". Referiu, no entanto, que as palavras também têm impacto, e que gosta "de complicar, do caos, da desorientação, do desencontro".
Influenciada pela pintura e pelo cinema, Anne Serre manifestou "grande paixão" pela obra de Federico Fellini, a quem continua a fazer referência nos seus livros. Admitiu que, com o tempo, se interessa menos pelo sublime e mais pelos "rostos, os corpos", e que "todos os quadros e filmes que vi entram no meu imaginário e dançam em conjunto".
Ana Margarida de Carvalho garantiu que as suas personagens "quase não têm cara". Questionada sobre a escolha de uma citação de Fernando Pessoa para iniciar o seu livro de contos, Anne Serre explicou que a obra agrupa histórias contadas por narradores diferentes, pois "o nosso olhar depende daquilo que somos" e "criamos mundos que não existem" porque "este mundo não nos satisfaz totalmente".
Ana Margarida de Carvalho revelou que o romance é "muito embaraçoso" e que preferiria escrever sob pseudónimo, pois os seus livros "são muito eu", com "o nosso passado, aquilo que nos atormenta". "A infância não sai de nós", acrescentou, referindo que "arrastamos coisas do passado uma vida inteira".
Ambas as escritoras preferem alhear-se do que se passa no mundo quando escrevem. Anne Serre assumiu que "o mundo pode desmoronar e continuo a escrever a mesma história". Ana Margarida de Carvalho questionou a regressão social e a benevolência com que se permite que aconteçam eventos negativos, comparando a atitude dos portugueses a "um povo de brandos protestos".




