Estudo inédito mapeia dor crónica ao longo da vida e por regiões do corpo

Investigação com mais de 6 milhões de pessoas revela padrões de dor que contrariam a ideia de acumulação contínua com o envelhecimento.

Representação abstrata da distribuição da dor crónica ao longo da vida e por regiões do corpo.
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Representação abstrata da distribuição da dor crónica ao longo da vida e por regiões do corpo.

Um estudo internacional com investigadores do ISPUP construiu curvas de referência globais para a dor autorreportada, analisando dados de mais de 6 milhões de pessoas em 118 países, com idades entre 5 e mais de 100 anos.

A dor crónica, principal causa de incapacidade mundial, é agora melhor compreendida graças a um estudo publicado na Nature Medicine. A investigação, que contou com a colaboração dos investigadores Makram Talih e Raquel Lucas, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), analisou dados de mais de 6 milhões de indivíduos em 118 países, abrangendo todas as faixas etárias e onze zonas do corpo.
Liderado pela Universidade McGill, no Canadá, o estudo utilizou dados de 902 fontes, incluindo o coorte Geração XXI do ISPUP, para construir curvas de referência globais para a dor autorreportada. Os dados recolhidos entre 1990 e 2025 focaram-se em dores na cabeça, face, pescoço ou ombro, cotovelo, mão ou pulso, peito, costas, estômago ou zona abdominal, anca, joelho e pé ou tornozelo.
A investigação concluiu que a prevalência de dor aumenta ao longo da vida, de cerca de 30% aos 5 anos para aproximadamente 70% aos 100 anos. Contudo, a evolução varia consoante a região: em sete das onze zonas analisadas, a dor segue uma curva em "u invertido", aumentando, atingindo um pico e depois diminuindo. Dores de cabeça, por exemplo, atingem o pico por volta dos 34 anos, enquanto dores nas costas, anca e joelho continuam a aumentar com a idade, com o máximo a ser registado aos 75 anos ou mais.
Os resultados contrariam a ideia de que a dor se acumula continuamente com o envelhecimento, sugerindo que a "janela de oportunidade para uma prevenção eficaz poderá surgir mais cedo". O aumento mais rápido da prevalência da dor ocorre antes dos 55 anos em todas as regiões do corpo.
Após os 65 anos, as desigualdades na prevalência da dor acentuam-se significativamente. Em países com menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a dor é 30,6 pontos percentuais superior à dos países com IDH mais elevado, especialmente na dor lombar. A Europa de Leste apresenta a maior prevalência de dor na velhice. Estes dados diferem de estimativas anteriores, pois baseiam-se em relatos diretos, captando melhor a dor em populações com menor acesso a cuidados de saúde.
Fatores modificáveis como tabagismo, obesidade e baixos rendimentos explicam 18,3% da carga global de dor. A obesidade está associada a dores nas articulações de suporte de peso, enquanto rendimentos mais baixos se correlacionam com mais dor em todas as zonas. O peso destes fatores varia regionalmente, sendo menor na África Subsariana.
As mulheres reportam mais dor do que os homens em todas as onze regiões analisadas. A probabilidade de relatar dor é significativamente maior nas mulheres para dores faciais (83% mais), dores de cabeça (74% mais) e dor abdominal (60% mais), bem como para dor de intensidade elevada e generalizada (cerca de 50% mais).
Informação elaborada a partir da fonte oficial: Noticias UP - Universidade do Porto (10/10/2026)