A dupla de investigadores foi distinguida pelo trabalho que ajudou a desvendar um dos grandes enigmas da química: a razão pela qual muitas moléculas existem em duas formas espelhadas, mas os organismos vivos utilizam predominantemente apenas uma delas, um fenómeno conhecido como quiralidade ou homoquiralidade.
As investigações de Kagan e Soai permitiram compreender como uma pequena diferença inicial entre as duas formas moleculares pode ser amplificada, favorecendo uma delas. Este conhecimento é de particular importância na síntese de medicamentos, onde as duas formas de uma molécula podem ter efeitos drasticamente diferentes no organismo.
“"Há situações muito específicas em que essa diferença poderá trazer problemas, nomeadamente quando estamos a desenvolver novos medicamentos."
O investigador Vasco Cachatra, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, explicou à Rádio Renascença que duas moléculas aparentemente idênticas podem apresentar propriedades muito distintas. Citou o caso da talidomida, onde um composto tinha efeito sedativo e o outro provocava graves defeitos congénitos, sublinhando a importância de desenvolver metodologias para obter seletivamente um único composto.
A mesma característica de quiralidade pode ser observada em exemplos quotidianos, como nos aromas dos citrinos. Cachatra exemplificou que, apesar de partilharem o mesmo composto, as duas formas moleculares podem gerar cheiros distintos, um de laranja e outro de limão.
Neste contexto, o investigador enquadrou o trabalho premiado com o Nobel, salientando que Kagan e Soai chegaram a conclusões semelhantes através de metodologias e compostos diferentes, mas com o mesmo objetivo final.




